ENTREVISTA | O caminho da democracia está em organizações regenerativas

“As OSCs são essenciais para o desenvolvimento do país. Todos os dias, elas garantem o direito à saúde e à educação, cuidam de crianças e idosos, protegem as florestas e fiscalizam o uso dos recursos públicos. Não há sociedade justa e não há democracia sem o trabalho das organizações da sociedade civil.”

A reflexão é de Rogerio Silva, sócio da Pacto, e reafirma a necessidade de apoio a esses atores em um cenário de fragilidade institucional e financeira do setor na mesma medida em que se constata sua importância na resposta à situação de emergência imposta pela pandemia de Covid-19.

Muito antes da maior crise sanitária de nosso tempo, já era consenso em setores como o do investimento social e da filantropia a necessidade de apoio institucional, tanto na dimensão financeira, como no campo das políticas públicas. São fruto dessa discussão e advocacy iniciativas como o Marco Regulatório das OSCs, resultado de intensa mobilização de diversos segmentos da sociedade em prol de uma legislação que reconheça e legitime a atuação do setor ao mesmo tempo que dê a ele suporte institucional e financeiro para atuar em sua agenda fim: a da conquista e defesa dos direitos humanos.

Mais do que coadjuvantes ou prestadoras de serviços, ao lado ou no lugar do poder público, o fortalecimento da democracia depende de uma sociedade civil organizada fortalecida e autônoma.

Este é o fio condutor desta entrevista exclusiva realizada com Rogerio. O especialista fundou, ao lado de seu sócio Sérgio Sampaio, a Regenera, comunidade aberta de aprendizagem sobre organizações regenerativas.

Com vasta experiência no campo social e na produção sobre estratégia, avaliação e desenvolvimento organizacional, o sócio da Pacto falou sobre a importância dessas organizações para a construção diária e perseverante de um Estado Democrático de Direitos, como é o Brasil.

Confira a entrevista completa.

Pacto: Frente à pandemia, vimos um movimento amplo de organizações da sociedade civil assumindo a linha de frente das respostas à emergência. Sem esses atores, os recursos doados pela sociedade não teriam chegado rapidamente às pessoas em situação de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, algumas pesquisas apontam que muitas organizações estavam em risco de fechar em 2020 devido à falta de apoio para suas atividades. Como você avalia o papel das OSCs em contraposição a algumas de suas fragilidades institucionais?

Rogerio Silva: O trabalho das OSCs no combate à pandemia é muito relevante. Um exemplo é a campanha Tem Gente com Fome, liderada pela Coalizão Negra por Direitos e outros atores da sociedade civil, que já arrecadou mais de 12 milhões de reais que serão direcionados à doação de cestas a famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica em todo o Brasil. Há muita força nessas organizações e elas fazem muito com poucos recursos. Se alguém quer aprender sobre eficiência, basta prestar atenção no trabalho das OSCs.

Agora, é verdade também que há desafios que essas organizações precisam enfrentar. Para que elas ampliem sua capacidade de mobilizar recursos, por exemplo, são necessárias estratégias para que a sociedade as reconheça e apoie. E para que seu trabalho seja de fato transformador, é preciso construir culturas organizacionais marcadas por aprendizagem, inovação, compromissos com resultados e cuidado com colaboradores.

Pacto: Essa necessidade de apoio institucional às OSCs ganhou mais evidência com a pandemia. Como esse debate se relaciona com o atual cenário político brasileiro, no qual há reais ameaças à democracia?

Rogerio: Nós precisamos criar um ambiente no qual a democracia possa se fortalecer. Tal ambiente requer  imprensa livre e responsável, órgãos públicos cumpridores de seus papéis e capazes de entregar bons serviços à população e OSCs fortes e vibrantes. É nesse sentido que cabe ao investimento social privado a importante tarefa de fomentar tal ambiente.

Para isso, ao mesmo tempo em que é preciso fortalecer as OSCs com consistentes práticas de grantmaking [doação], também atravessamos um momento no qual é essencial apoiar as iniciativas que têm tentado atualizar as legislações que tratam de doações, da gestão de fundos,  de apoios a negócios de impacto, entre outras que legitimem e subsidiem a atuação desses atores.

Pacto: Diante do cenário de crise mundial, ficou ainda mais evidente a necessidade de as organizações terem um olhar cada vez mais sistêmico para seus processos e seus impactos na sociedade. Que caminhos as OSCs precisam trilhar para se tornarem regenerativas? E quais são os principais desafios e obstáculos a serem superados nessa direção?

Rogerio: Estamos cada vez mais conscientes da complexidade dos problemas que nos afligem. Eles atravessam o tempo e as fronteiras físicas, temáticas e institucionais. É essa estrutura desafiadora que demanda que as organizações reinventem seus modos de estar no mundo. Ao mesmo tempo em que continua sendo muito importante planejar as ações, precisamos de modelos de gestão de impacto que respondam rapidamente a situações de emergência. A isso costumamos chamar de gestão adaptativa.

Outro tema fundamental é o da coerência. Nós precisamos reduzir o consumo de recursos naturais em nossas organizações e precisamos zelar para que o trabalho que as OSCs realizam e os efeitos que elas produzem não custem a saúde dos ativistas, gestores e equipes. A saúde é um tema essencial para a vida das organizações da sociedade civil.

Pacto: Que aprendizados e conselhos você compartilharia para inspirar organizações da sociedade civil nesse movimento na direção de se tornarem organizações regenerativas?

Rogerio: É preciso conversar sobre isso. O que aprendemos é que os conceitos e as práticas regenerativas requerem consciência e escolhas. Não há e não deve haver modelos regenerativos prontos, o que seria um contra-senso com a base orgânica e singular a partir da qual emerge o conceito de regeneração.

Se há um conselho a dar, ele vai na direção de propor que as organizações façam perguntas sobre seus modelos organizacionais, sobre a qualidade das relações que estabelecem, sobre os recursos que consomem, os efeitos que produzem. Que elas questionem qual é o tamanho de sua pegada socioambiental e do legado que estão construindo.

Pacto: Quais papéis poderão desempenhar as organizações regenerativas agora e no pós-pandemia em se tratando do esforço necessário para enfrentar o atual cenário crescente de desigualdades e colapso ambiental na perspectiva de uma transformação radical da sociedade e do atual modelo de desenvolvimento predatório?

Rogerio: Se realmente queremos transformar a sociedade brasileira na direção de sermos uma nação mais democrática e mais justa, é preciso atuar em nossas falhas estruturais. Não haverá democracia, enquanto vivermos em um país racista. Não haverá justiça social, enquanto não ampliarmos a distribuição de riquezas. Não haverá plenitude de direitos, enquanto boicotarmos sistematicamente a Constituição Federal.

E por isso é importante não fazer da palavra ‘regenerativo’ um significante vazio como o fizemos com tantos outros. A via regenerativa implica afirmar a vida sobre todas as coisas. A vida de todos os povos, a vida dos ecossistemas, a vida do planeta Terra. E isso se faz no micro movimento de todo dia, dentro de cada organização, em cada contratação, em cada reunião, em cada gesto. Mas também nos movimentos mais amplos dos quais as organizações não podem se furtar.

Pacto: Como as redes, alianças, coalizões e movimentos com os quais a Pacto tem relação podem colaborar para esse movimento de transformação?

Rogerio: Mais do que fortalecer organizações individualmente, a Pacto tem atuado para favorecer práticas colaborativas entre esses atores. Há diversas experiências colaborativas no Brasil, que vão dos consórcios intermunicipais em saúde aos arranjos de desenvolvimento da educação, das coalizões setoriais às redes temáticas e regionais. A ação coletiva é um sinal de que estamos compreendendo que os problemas que enfrentamos são maiores do que nós. Um sinal de que está na junção das forças a possibilidade de costurar o tecido social brasileiro e superar as mazelas que ainda nos definem como a nação mais desigual do planeta, entre as maiores economias.